Início da Cápsula #0002

Essa semana a Fundação Mozilla lançou uma campanha publicitária contra a classe bilionária da tecnologia1 — e eu estou nela. Um dos pôsteres, colado em paredes de Nova York, me coloca ao lado de Mark Zuckerberg: ele constrói óculos que vigiam e facilita que tarados e abusadores cometam mais crimes. Por outro lado, eu construo inteligência artificial local para expor violência no Brasil, projeto em parceria com o Instituto Fogo Cruzado2. Escrevo sobre a campanha não como analista neutra, mas como sujeito da peça — e é exatamente dessa posição dupla, de quem faz parte do objeto que analisa, que este texto parte.

Vale observar a disposição das peças. Cada pôster segue uma tríade: no primeiro frame, um bilionário — Zuckerberg com seus óculos vigilantes, Musk comprando e demolindo o pássaro azul, Bezos lançando celebridades ao espaço. No segundo, uma pessoa comum construindo alternativa: IA local para expor violência, redes sociais descentralizadas onde as comunidades decidem, ferramentas de democracia que fortalecem vozes quenianas3. E no terceiro, o fechamento coletivo: “Os poderosos não deveriam escolher o que nós vemos. Todos nós decidimos.”4 (“The powerful shouldn’t choose what we see. We all decide.”). A composição é deliberada — mesmo tamanho, mesmo peso visual entre o bilionário e a pessoa que constrói —, mas é na gramática que a operação se completa: o sujeito da frase migra do proprietário singular (Mark constrói, Elon compra, Jeff constrói) para o plural constitutivo (todos nós decidimos, todos nós fazemos, todos nós construímos). Não é um duelo de individualidades, onde um herói substituiria um vilão, mas sim uma recusa da própria mitologia do gênio solitário — a substituição da pergunta “quem será o próximo Steve Jobs?” por “o que podemos construir juntos?”. Isso, num anúncio, é quase um manifesto teórico condensado em peça publicitária.

Pôster da campanha da Mozilla com Mark Zuckerberg e Iara

“Mark gets into eyewear / Makes creepers, peepers. Iara builds local AI. Exposes political violence. The powerful shouldn’t choose what we see. We all decide” — Tradução livre: “Mark entra para o mercado de óculos / Fabrica tarados, bisbilhoteiros. Iara constrói IA local. Expõe violência política. Os poderosos não deveriam escolher o que nós vemos. Todos nós decidimos.”

O timing não é acidental. No Brasil, em plena campanha eleitoral presidencial, o alerta principal não é sobre possibilidade de fraude nas urnas nem que os sistemas eletrônicos de votação estejam ameaçados. No entanto, a avaliação da inteligência brasileira5 concentra-se em outro terreno: pressões econômicas, sanções, medidas diplomáticas e construção de narrativas capazes de repercutir no debate político interno e de atingir empresas, instituições e pessoas por meio do sistema financeiro, do comércio exterior e de medidas sancionatórias. Não se trata apenas da desinformação que circula nas plataformas — essa é a camada superficial, a mais visível. Trata-se de algo mais estrutural: decisões de moderação e amplificação tomadas em board rooms californianas que alteram o que eleitores brasileiros veem, debatem e acreditam e, cada vez mais, respostas de assistentes de IA enviesadas chegando prontas a quem pede ajuda para decidir o voto. Se a arena onde uma democracia se forma pertence a proprietários privados estrangeiros, votar não é escolher representantes — é consentir, ou não, com quem define o que pode ser dito, visto e debatido. E ninguém nos avisou que esse era o jogo. A questão de quem controla a infraestrutura da comunicação deixou de ser debate nichado de cibercultura: é debate eleitoral, de segurança pública e de soberania.

No início da World Wide Web, o ciberespaço era frequentemente concebido como uma fronteira horizontal: uma rede rizomática e descentralizada onde a hierarquia corporativa seria dissolvida pela livre circulação da informação. Contudo, em poucas décadas, a hegemonia monopolista das Big Techs incutiu no público uma incapacidade quase total de imaginar como a comunicação global, a infraestrutura cívica, o consumo de mídia e a pesquisa de dados poderiam funcionar fora dos “jardins murados” destas megacorporações.

Considero essa condição como um Realismo de Plataforma (uma junção entre Realismo Capitalista, do Fisher6, e Capitalismo de Plataforma, de Nick Srnicek7). Assim como o realismo capitalista de Mark Fisher — a acepção difundida de que o capitalismo é o único sistema possível, tanto que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” —, o Realismo de Plataforma opera através de uma dupla dissimulação: apresenta suas infraestruturas como ferramentas neutras, transparentes e inevitáveis (meras extensões orgânicas da capacidade neurológica e linguística humana), ao mesmo tempo que molda ativamente a textura da realidade para tornar a sobrevivência cívica e econômica impossível fora dos seus domínios. Apesar do mal-estar generalizado em relação à erosão da privacidade, à proliferação da desinformação e à degradação da saúde mental, tornou-se cognitivamente absurdo para a maioria da população global considerar um mundo sem essas plataformas como possibilidade política. É mais fácil imaginar o fim da internet do que o fim delas.

Pôster da campanha com Elon Musk e Rudy

“Elon buys the blue bird. He trashes the place. Rudy builds Blacksky. Communities call the shots. Wannabe kings don’t rule the internet. We all do.” — Tradução livre: “Elon compra o pássaro azul. Destrói o lugar. Rudy constrói o Blacksky. As comunidades decidem. Pessoas com rei na barriga não mandam na internet. Todos nós mandamos.”

É aqui que Fisher se torna instrumento analítico, através do conceito — herdado de Derrida8 — de hauntologia (ou assombrologia): uma época assombrada por futuros perdidos e por persistências anacrônicas do passado. Não é raro encontrar, em quem viveu o auge da internet aberta, o luto por um futuro que parecia iminente: uma rede que empoderaria coletivos e indivíduos, ampliaria mundos e possibilidades. O “lento cancelamento do futuro”9 se manifesta fisicamente na implosão do tempo cultural: a cultura pop contemporânea é definida pela repetição compulsiva, pela fetichização do próprio arquivo e por um pastiche esvaziado de contexto revolucionário. O que aqueles que sonharam com a web aberta experimentam como perda pessoal é, na verdade, o sintoma coletivo dessa assombração: o futuro foi cancelado, mas ainda nos assombra.

Assim, se as redes sociais fragmentam o tecido cívico através do estresse e do ressentimento, a arquitetura algorítmica das plataformas de distribuição de áudio, vídeo e entretenimento atua simultaneamente como carrasco e embalsamador da inovação estética: mata a possibilidade do novo e conserva, taxidermizada, a forma do que já foi. É o que vemos sendo revivido em trends que de tempos em tempos são bombardeadas em nosso colo: imagens geradas por IA que mostram como seríamos nos anos 80, recriações de fotografias antigas, filtros que rejuvenescem rostos, a estética polaroid reinflada a cada ciclo. E quando o arquivo nacional entra na jogada, o fenômeno ganha contornos quase caricatos. É o caso do Blow Records10, que produziu com IA versões de funk carioca no estilo de músicas dos anos 60, 70 e 80 — boogie, disco, funk — e o resultado viralizou da Europa à Ásia, com letras de proibidão ecoando em restaurantes e lojas ao redor do mundo, para plateias que não entendem uma palavra do que está sendo cantado. O algoritmo não produz nada — ele embalsama e rearranja. E o resultado é uma estranha nostalgia por tempos que muitos de nós nem vivemos ou que simplesmente nunca existiram: fabricada sob demanda, entregue em porções calibradas pelo engajamento. O novo tornou-se caro, arriscado. O passado reciclado, barato, propositalmente viral e falsamente perfeito. Nenhuma vanguarda sobrevive a essa economia: só o arquivo, regurgitado.

Diante desse diagnóstico, o que resta fazer? Se o Realismo de Plataforma opera primeiramente como captura da imaginação, tornando impensável a vida fora dos jardins murados, então o campo de batalha primário não é o regulatório nem o técnico, mas o imaginário: a capacidade coletiva de conceber alternativas. E é precisamente aí que a campanha da Mozilla acerta. Ao colocar lado a lado, no mesmo tamanho e na mesma parede, o tech bro bilionário que vigia e a fellow que constrói inteligência artificial local para mapear violência, o pôster constrói o argumento central da hauntologia fisheriana em direção inversa: não assombrar o presente com o futuro perdido, mas dessacralizar o presente com o futuro possível. A mensagem é que a alternativa não é uma abstração utópica — ela já existe, está funcionando, tem nome, sobrenome e rosto, e cabe no espaço exato que hoje ocupa a mitologia do gênio. Nesse sentido, a campanha não anuncia um produto, mas sim é a propaganda do próprio horizonte imaginativo. Faz o trabalho deliberado de lembrar que há mais gente construindo do que comprando — e que essa construção descentralizada, coletiva e cotidiana — protocolos abertos, IA local, ferramentas cívicas de verificação — é o verdadeiro motor tecnológico do nosso tempo, ainda que invisibilizada pelo espetáculo bilionário. A saída é, antes de mais nada, coletiva.

Pôster da campanha com Jeff Bezos e Rose

“Jeff builds a rocket. Celebrities go to outer space. Rose builds democracy tools. Kenyan voices grow stronger. Joyrides won’t build a better future. We all will.” — Tradução livre: “Jeff constrói um foguete. Celebridades vão ao espaço. Rose constrói ferramentas de democracia. Vozes quenianas crescem mais fortes. Passeios não constroem um futuro melhor. Todos nós construímos.”

Dirá alguém que a resistência também virou marketing, que até o culture jamming11 é capturada pelo capital simbólico e que, assim, até o próprio cartaz é mercadoria do sistema que denuncia. Talvez. Mas a crítica ao formato não pode excluir o conteúdo: nenhuma ambiguidade publicitária apaga o fato de que, em plena Manhattan durante a semana da UNGA12, milhares de passantes trombaram com a pergunta certa. E muitos ainda vão ser atingidos nas redes sociais.

Num Brasil em período eleitoral, onde a interferência de plataformas estrangeiras no processo democrático é notícia diária, esse gesto tem peso específico. Lembra que a infraestrutura da comunicação não é destino natural das Big Techs, mas território disputado — e que, no território disputado, o primeiro ato de soberania é recusar a premissa de que não há alternativa. O que o lento cancelamento do futuro tentou enterrar não morreu: sobrevive, distribuído e operante, em cada projeto que aponta para fora dos muros que a broligarquia tenta nos impor.

Não falta futuro — falta imaginá-lo. Não falta futuro — falta propaganda dele.

Felizmente, essa semana, houve.

Fim da Cápsula #0002


Referências


  1. BUSINESS INSIDER. Mozilla is plastering New York with posters mocking tech billionaires as part of a new marketing campaign. https://www.businessinsider.com/mozillas-new-ad-campaign-features-posters-criticizing-big-tech-execs-2026-9 ↩︎

  2. INSTITUTO FOGO CRUZADO. https://fogocruzado.org.br/. ↩︎

  3. Projeto Mozilla. https://www.mozillafoundation.org/en/what-we-do/grantmaking/fellowship/2026-mozilla-fellows/ ↩︎

  4. Tradução própria dos slogans originais em inglês dos pôsteres. ↩︎

  5. CNN Brasil. Governo vê interferência dos EUA em eleição brasileira por quatro frentes. https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/caio-junqueira/eleicoes/governo-ve-interferencia-dos-eua-em-eleicao-brasileira-por-quatro-frentes/ ↩︎

  6. FISHER, Mark. Realismo capitalista: É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? Trad. Rodrigo Gonsalves, Jorge Adeodato e Maikel da Silveira. São Paulo: Autonomia Literária, 2020. https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/realismo-capitalista/ ↩︎

  7. SRNICEK, Nick. Platform Capitalism. Cambridge: Polity Press, 2017. ↩︎

  8. DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx: o estado da dívida, o trabalho do luto e a nova internacional. Trad. Anamaria Skinner. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994. ↩︎

  9. FISHER, Mark. Fantasmas da minha vida: escritos sobre depressão, assombrologia e futuros perdidos. Trad. Guilherme Ziggy. São Paulo: Autonomia Literária, 2024. https://autonomialiteraria.com.br/loja/filosofia/fantasmas-da-minha-vida-escritos-sobre-depressao-assombrologia-e-futuros-perdidos/ ↩︎

  10. BLOW RECORDS. https://www.youtube.com/@BlowRecordsBR ↩︎

  11. Culture Jamming é uma forma de protesto usada por muitos movimentos sociais anticonsumistas para interromper ou subverter a cultura midiática e suas principais instituições culturais, incluindo a publicidade corporativa. É frequentemente descrita como uma maneira de chamar a atenção para os métodos pelos quais a sociedade de massa e as instituições midiáticas moldam a percepção pública. https://en.wikipedia.org/wiki/Culture_jamming ↩︎

  12. A UNGA (sigla em inglês para United Nations General Assembly), ou Assembleia Geral da ONU, é o principal órgão deliberativo e de formulação de políticas da Organização das Nações Unidas. ↩︎